A primeira frase é um fato que constatei hoje. A segunda frase é de autoria de Gibran Khalil Gibran em uma de suas cartas de amor. Não há como dissociá-las desse momento que estou vivendo.
Mudar-me para Curitiba foi um ato de coragem, disseram meus amigos há 4 anos. Honestamente ainda não consegui enxergar essa coragem. Tinha motivos, razões e sonhos. Coragem é apenas mais uma palavra que poderia significar muito bem “cachorro-quente” em outra língua (ou na nossa mesmo).
As atitudes se perdem nos significados das palavras. Mas admito que, nessa minha mudança para Curitiba , muita gente me chamou de doido e nem sabiam de um décimo das razões que me levaram a tal. Confesso que dou certa razão a eles. Para exercitar um grande desprendimento é preciso ousadia e claro, um pouco de loucura, porque não?
Então sou louco segundo o modo de pensar deles.... Mas para mim tudo sempre fez muito sentido, sempre estava tão claro... Minha necessidade de buscar novos lugares, novas experiências e desafios sempre foi, em última instância, a busca por mim mesmo.
É certo que algumas pessoas chegariam a essa mesma conclusão sem sair de sua casa, mas comigo tudo sempre foi muito diferente e sempre soube disso. Hoje posso traduzir isso em muitos outros significados. Eu me lembro de uma antiga frase dos cavaleiros templários que dizia: ”se quiseres ir a Acre, serás mandado a Jafa, se quiseres ir a Tiro, irás para Chipre, descansarás quando quiseres vigiar e vigiará quando quiseres descansar”...
De certa forma nós não nos pertencemos, nossos sonhos é que nos dirigem... se deixarmos, claro. Ocorre também que depois dessas grandes transições muita coisa fica clara, muita coisa começa a fazer sentido. São amizades, interesses e afinidades que te conduzem e convergem exatamente para aquele ponto, e assim tudo fica parecendo com um daqueles filmes difíceis que só conseguimos entender aos poucos e cujo final é surpreendente.
Minha história com Curitiba é bem longa. Uma de minhas almas gêmeas reencontrou bem aqui, e posteriormente ela me deixou fisicamente, sozinho neste plano.
Isso dói demais, dói demais aqui dentro mim. Por sermos jovens pensamos que somos imortais e onipotentes. Ledo, ledo engano, mas a gente sempre se consola.
Talvez seja por isso que Curitiba sempre terá, para mim, as paisagens mais lindas e também as mais tristes. Mas amarei mesmo assim o barulho do vento nas árvores daqui, o sol daqui, a chuva daqui, as ruas, prédios e parques, da mesma forma que a Raposa amará os campos de trigo como descrito no livro O Pequeno Príncipe. Lá, o dourado dos campos de trigo lembram à raposa os cabelos dourados do Pequeno Príncipe. Aqui, para mim, as flores dos ipês na Primavera farão as vezes dos campos de trigo no livro de Saint-Exupèry.
E olhando o céu curitibano à noite (é o lugar onde ela está) as estrelas também me sorriem como milhares de guizos...
A segunda frase do título desse conto, extraída de uma das cartas de amor de Khalil Gibran (um dos meus autores preferidos) a Mary Haskell, à qual tive o prazer de ler, é o que melhor poderia expressar a forma “diferente” ou talvez, a minha singularidade, a forma com que tento enxergar o mundo. Transcrevo a carta em sua íntegra:
“3 de setembro, 1920.
A intensidade da vida depende de como a olhamos.
Há pintores que iriam achar belo este prato de uvas que se encontra sobre a mesa; e tentariam pintá-las com todo o seu frescor, sua cor, sua luz e sua forma.
E nós, quando olhamos o quadro que resultou disto, devemos pensar nos vinhedos, como eles cresceram e como foi a colheita.
Pensar na loja onde o vinho destas uvas será vendido, e nas bocas que o provarão; entender que cada uma delas veio de um lugar diferente, embora estejam todas no mesmo prato.
Reparar que este prato é chinês, e recordar tudo que aprendemos sobre a China.
Então nossos olhos se dirigem à mesa onde o prato repousa, e pensamos de que madeira é feito, como era a árvore de onde foi tirada, quem a cortou, e onde vivia o lenhador com sua família.
Ver as coisas desta maneira enriquece a imaginação, e nos abre para um mundo muito mais rico.
As crianças deviam aprender a fazer isto. “
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"Há quem passe pelo bosque e só veja lenha para a fogueira."
Leon Tolstoi.
"A arte da vida consiste em fazer da vida uma obra de arte."
Mahatma Gandhi.